Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 29 de dezembro de 2019 às 21:09

Sem Centeno, Costa “ficará mais exposto”

As habituais notas da semana de Marques Mendes, no seu espaço de comentário na SIC. O comentador fala sobre as mensagens de Natal do Presidente da República e do primeiro-ministro e sobre alguns temas que deverão marcar 2020.

A MENSAGEM DE NATAL DE MARCELO

 

  1. Passou relativamente despercebida uma mensagem de Natal que o Presidente da República fez através de um artigo de opinião no Jornal de Notícias no dia de Natal. E, todavia, é um texto relativamente inesperado no consulado de Marcelo. Porque Marcelo fez duas críticas à ausência de reformas no país e à falta de visão de médio e de longo prazo por arte dos responsáveis políticos.

 

  1. Pessoalmente, acho que o Presidente fez bem:
Primeiro, porque os portugueses gostam de ter um Presidente de afectos, de selfies, de proximidade e de apoio ao Governo, mas também gostam de ver o Presidente de vez em quando a "falar grosso", a fazer avisos à navegação e a chamar a atenção para o que vai mal no país e no governo.

Depois, porque o estado do país assim o exige. Não vou ao exagero de dizer que "vivemos sobre arames". Mas que o país continua muito frágil e vulnerável lá isso é uma verdade indiscutível.
  • Temos uma dívida pública enorme. Temos um crescimento económico anémico. Temos uma produtividade muito baixa. E continuamos com um nível de pobreza e de desigualdades sociais absolutamente gritante.
  • Apesar destas evidências e com excepção da redução do défice, não se vêem medidas estruturais que ajudem a dar a volta nesta situação. É bom que o Presidente diga estas verdades. E se em próxima mensagem puder ser mais concreto tanto melhor. Não é para fazer oposição. É para fazer pedagogia.

 

ANTÓNIO COSTA E A SAÚDE

  1. António Costa teve uma mensagem de Natal inovadora: concentrar a mensagem num tema único – a Saúde. Acho que é simultaneamente um sinal de preocupação e um sinal de inteligência.
  2. Sinal de preocupação: o PM andou anos e anos a desvalorizar a crise do SNS. A fingir e a fazer de conta. Agora, finalmente, percebeu que o problema é sério e que lhe causa sério desgaste. Mudou de atitude. Mais vale tarde do que nunca.
  3. Sinal de inteligência: no momento em que coloca a saúde na sua agenda política, o Governo retira espaço de manobra às oposições. O país centra as atenções no discurso do Governo, nas suas mensagens, nas suas decisões e não tanto nas críticas dos vários partidos.

 

Em qualquer caso, o problema da saúde é tão sério que não se resolve só com o recurso a mais propaganda ou até a mais dinheiro. Não basta falar. É preciso fazer. Para ter sucesso nesta área, o PM só tem uma solução: dar ao sector da saúde, nesta legislatura, a mesma prioridade que deu à redução do défice na anterior legislatura.

E isso implica: vontade política; capacidade reformadora; abrir os cordões à bolsa; um Ministro com estatuto forte. Conseguirá reunir todas estas condições? Só  o futuro o dirá!!!

 
 

SAÚDE – DE QUEM É A CULPA?

 

  1. Uma sondagem da Intercampus para o CM e o Negócios, esta semana divulgada, é surpreendente57% dos portugueses acham que a culpa do mau estado da saúde é do PM ou da Ministra da Saúde. Só 14% culpam Mário Centeno. Tudo ao contrário do que costumam dizer os agentes políticos. 
  1. Esta sondagem tem muito que se lhe diga. É um verdadeiro facto político:
Primeiro: esta sondagem é explosiva. Ela prova que o estatuto do ministro das Finanças (MF) só pode gerar ciúmes e desconforto dentro do Governo. Porque os sucessos são de Centeno; os fracassos são do primeiro-ministro (PM) e dos Ministros. Não admira que o PM e o MF estejam em rota de colisão. Nenhum PM gosta de um ministro que lhe faça sombra.

Segundo: esta sondagem prova também que o estatuto de credibilidade de Mário Centeno é absolutamente invulgar
. Nunca um MF teve um estatuto tão forte. O que significa que quando ele sair – provavelmente a meio do próximo ano – o Governo vai ficar seriamente enfraquecido.

Terceiro
: desgraçado do Ministro ou da Ministra que vier a seguir a Mário Centeno. Vai ficar sempre ofuscado ou ofuscada pela sombra de Centeno. Não será difícil suceder a Centeno. Difícil vai ser substituí-lo.

Finalmente
: hoje, no seu íntimo, o PM até desejará a saída de Centeno. Um dia, mais tarde, perceberá o problema: sem Centeno, além de um Governo mais fraco, também o PM ficará mais exposto e, por isso, mais vulnerável

 


PREVISÕES PARA 2020:
 

 

 

TRUMP SERÁ REELEITO?

Com os dados que existem, o mais provável é mesmo a reeleição de Trump. E este vai ser, provavelmente, o acontecimento que mais vai influenciar a próxima década.

 

Primeiro: tem a seu favor um grande trunfo eleitoral – o bom estado da economia americana.

 

Segundo: a sua base de apoio, apesar das críticas de que tem sido alvo, continua intacta.

 

Terceiro: o processo de impeachment não está a resultar na opinião pública. As sondagens conhecidas não são muito favoráveis à destituição de Trump. Os americanos acham que este processo de impeachment não é credível – é visto como uma jogada político-eleitoral dos democratas.

 

Quarto: o impeachment, além de não passar no Senado, pode mesmo virar-se contra os democratas. É que pode dar-se o caso de começarem a vir a público gravações de telefonemas de Joe Biden a interceder pelo seu filho junto das autoridades da Ucrânia. O feitiço pode virar-se contra o feiticeiro.

 

O BREXIT ACONTECE EM JANEIRO?

  1. As duas boas notícias são estas: o Reino Unido vai mesmo sair da UE no final de Janeiro; e esta saída vai ser feita de forma controlada e não descoordenada. Ou seja: acaba o tempo da incerteza em torno do Brexit. 
  1. Tudo o resto são más notícias para a Europa e para o Reino Unido:
  2. A UE fica mais pequena – Sem um grande país como o RU a Europa perde dimensão e pode perder competitividade;
  3. A UE fica mais frágilAbriu-se um precedente perigoso: até aqui eram muitos países a quererem entrar na UE e nenhum a querer sair. Agora mudou o paradigma e isto enfraquece a UE.
  4. Finalmente, a UE fica mais desequilibrada – Sai um país transatlântico, de vocação marítima e, sobretudo, um país que fazia equilíbrios em relação ao eixo franco-alemão.

Como se tudo isto não chegasse, o RU corre o risco, a médio prazo, de se desintegrar, com a ameaça de independência da Escócia e, sabe-se lá, da própria Irlanda do Norte. Conclusão: o Brexit e as suas consequências são outro dos acontecimentos mais marcantes para a próxima década.

 

OS PROTESTOS DE HONG KONG VÃO CONTINUAR?

 

  1. O mais provável é que os protestos prossigam, sem se saber bem até quando e até onde. E porquê?
Primeiro: porque a China não vai ceder às principais pretensões dos manifestantes, dentro do princípio de que não se negoceia num clima de ameaça e de medo. E porque não quer abrir precedentes para outras regiões.

Segundo: a China não fará uma intervenção armada em Hong Kong. A tentação é grande mas não haverá uma segunda Tiananmen
. Os chineses sabem que uma intervenção violenta em Hong Kong mancharia irremediavelmente a sua imagem no exterior. Ora a China quer reforçar a sua imagem de credibilidade no estrangeiro e não diminuí-la.

 

  1. Em suma, de um lado temos a luta pela democracia. Do outro lado, a preocupação da China de não cometer erros para não afectar o seu objectivo de chegar a líder mundial.

 

  

PEDOFILIA – UMA NOVA FASE NA IGREJA?

 

  1. O Papa Francisco, desde o início do seu pontificado, marcou um tempo de viragem no plano do combate aos abusos sexuais. Mas agora teve duas decisões especialmente corajosas:
Primeiro: decidiu abrir os Arquivos da Igreja às vítimas dos abusos sexuais. É uma decisão óbvia e justa que acaba com anos e anos de falta de transparência dentro da Igreja.

Segundo: decidiu abrir os Arquivos da Igreja
, em matéria de pedofilia, às autoridades nacionais dos respectivos países. É outra decisão completamente óbvia, mas que sempre suscitou e suscita grande resistência de vários sectores da Igreja.

 

  1. Tudo isto comprova duas coisas: por um lado, que a Igreja falhou neste campo; por outro lado, que os católicos devem muito a este Papa – devem-lhe a coragem de restituir à Igreja a credibilidade que tinha sido abalada.

 

MARCELO RECANDIDATA-SE?

 

  1. Claro que sim. Não haverá surpresa. Todos os sinais são nesse sentido. O PR tem saúde, energia, popularidade e muito caminho a percorrer.
  1. As dúvidas são outras. Essencialmente duas:

Primeira dúvida: terá o PS o seu próprio candidato presidencial? Não me parece. António Costa não vai arriscar. Com a popularidade que Marcelo tem, o PS corria o risco de ter uma derrota humilhante. Uma derrota que o fragilizava politicamente. Já tem problemas que cheguem.


Segunda dúvida
: conseguirá Marcelo ultrapassar o recorde de Mário Soares em 1991 (70% dos votos)? Esta vai ser uma das grandes dúvidas da reeleição. E, para isso, Marcelo vai ter de acautelar especialmente o seu espaço à direita. É da área da direita – sobretudo da direita mais radical e populista – que poderão vir as suas maiores dificuldades eleitorais.

 

 

O JULGAMENTO DE SÓCRATES COMEÇA EM 2020?

  1. Aquele que será o julgamento da década não começará em 2020. É praticamente impossível. O mais provável é começar só em 2021.
  2. Não haverá decisão instrutória antes de Abril.
  3. Depois haverá um período para arguir nulidades e para recursos dos eventuais despachos de não pronúncia.
  4. Só depois se passa à fase de distribuição do processo para marcação do julgamento.
  5. Daí até ao início do julgamento ainda passarão meses.

 

Isto é inevitável mas muito mau para a imagem da justiça. Quase escandaloso.

Inevitável porque é um megaprocesso
. E um megaprocesso dá nisto – a investigação começou em 2014 e uma decisão final, já com julgamento e recursos, só lá para o fim desta próxima década.

Muito mau porque desta forma a opinião pública descrê da justiça
. Perde a confiança na justiça. Acha que os poderosos se safam sempre e que o processo dará em "águas de bacalhau". Infelizmente, não há nada a fazer.

 


RIO OU MONTENEGRO – QUEM GANHA NO PSD?

 

É muito difícil prever quem vai ganhar. A luta entre Rio e Montenegro está a ser disputada taco a taco. O que pode prever-se, com alguma segurança, são três coisas:

 

Primeiro: provavelmente ninguém vai ganhar à primeira volta. Vai ser necessária uma segunda volta entre Montenegro e Rio.

 

Segundo: Miguel Pinto Luz vai ter um resultado interessante, acima das expectativas iniciais.

 

 

Terceiro: ganhe quem ganhar – Montenegro ou Rio – temos pela frente duas estratégias radicalmente diferentes:

 

  1. Rio é a continuidade – defende uma oposição soft, abertura a entendimentos com o PS e muita cautela quanto à viabilização de orçamentos.
  2. Montenegro é a mudança – defende uma oposição mais firme, opõe-se a acordos com o PS e espreita a oportunidade de derrubar o Governo, no fim de 2021, como ainda esta semana explicou num artigo de opinião no jornal Público.

 

A ECONOMIA VAI MELHORAR OU PIORAR?

 

  1. Seguindo os indicadores oficiais, o próximo ano vai ser, em termos económicos, muito semelhante ao ano que está a terminar. A economia e o desemprego vão continuar ao nível do que já temos hoje. Continuaremos a crescer, ainda que pouco. E com uma reduzida taxa de desemprego.
  1. Mesmo assim, é preciso ter alguma cautela, sobretudo por causa da situação em Espanha, que é o nosso principal parceiro comercial. Uma gripe em Espanha pode ser uma pneumonia em Portugal. E a verdade é que:
  • A Espanha ainda não tem governo, nem se sabe se vai ter a curto prazo;
  • A economia espanhola está a abrandar a um ritmo preocupante, na sequência da crise na Catalunha e da instabilidade política no país. Pela primeira vez nos últimos anos, as previsões são de que a Espanha crescerá menos que Portugal.
E sobre economia, só uma nota: o ministro dos Negócios Estrangeiros criou uma certa tempestade ao acusar as empresas de falta de gestão. É claro que há um poblema sério de gestão, que as empresas reconhecem, mas o ministro não deve ser comentador. O que deveria era falar sobre o que o Governo não consegue resolver.

 

O QUE FARÁ PORTUGAL NO EUROPEU DE FUTEBOL E NOS JOGOS OLÍMPICOS?

 

  1. No Campeonato Europeu de Futebol a tarefa de Portugal é ciclópica. Estamos no chamado "grupo da morte" com a França e a Alemanha. Passar à fase seguinte é dificílimo. Mesmo assim, convém não esquecer a tradição – quando temos pela frente seleções teoricamente mais fortes, os portugueses normalmente agigantam.se. foi assim no Europeu de 2000 e foi assim na final do Europeu de França há 4 anos
  1. Nos Jogos Olímpicos de Tóquio podemos ter algum sucesso:
  2. A expectativa oficial é de obter duas medalhas mas podemos obter mais, sobretudo na Canoagem (com Fernando Pimenta), no Judo (com Jorge Fonseca e Telma Monteiro) e no Atletismo (com Nelson Évora, Patrícia Mamona e Pedro Pichardo).
  3. O Comité Olímpico está a fazer um bom trabalho e podemos ter em Tóquio quase tantos atletas (70 a 75) quanto tivemos nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (exceptuando o futebol).
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