Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 13 de novembro de 2019 às 18:18

Espanha: parece óbvio

Com o devido respeito pelos assuntos internos de Espanha, devo dizer que parece errada a opção do PSOE para a solução parlamentar de apoio ao futuro governo.

Antes do mais, porque se torna evidente que esta solução prima pela incoerência à luz de tudo aquilo que o PSOE e os seus dirigentes afirmaram, há poucas semanas, sobre o Podemos e os seus responsáveis. Se era para fazer este entendimento, não tinham ido a eleições, até porque tinham uma posição mais confortável no anterior parlamento. Se o PSOE não queria nada com o Podemos, quase nem conversar, há cerca de um mês, como é possível que tenha mudado completamente de opinião? Agora já conversa, já abraça, já assina pactos, já forma governo conjunto. Muita incongruência, sem dúvida nenhuma.

 

Para além dessa questão, existem os problemas de fundo, e nomeadamente o tema das autonomias, com especial destaque, nesta altura, para a Catalunha. Ora, se existe uma grave questão de regime, ligada ainda por cima à unidade do Estado, que mexe com o exercício da soberania, só podia e só pode haver uma solução, e que passa por um entendimento entre os dois principais partidos desse mesmo regime. Trata-se, pura e simplesmente, de sentido de responsabilidade, ou sentido de Estado. Escolher para parceiros de governo partidos com posições dúbias nessa matéria cimeira só pode dar mau resultado. É difícil para o PP? Muito difícil. É difícil para o PSOE? Também, muito. Mas, quanto mais não seja, pensem no que aconteceu aos Ciudadanos. Se tivesse demonstrado esse sentido de responsabilidade, na sequência das eleições de abril, certamente não teria sofrido a derrocada eleitoral que o atingiu. Os eleitores espanhóis devem estar absolutamente saturados de eleições e de campanhas eleitorais. Devem suspirar por estabilidade que traga também ordem constitucional e progresso económico. Quem viabilizar esse caminho, numa altura como esta, só terá a ganhar. Tenho muito poucas dúvidas sobre isso. É difícil de perceber que não se perceba isso.

 

Os dirigentes políticos, estejam no Governo ou na oposição, têm de ser os primeiros a perceber quando o respetivo país está numa situação grave, à beira de ruturas perigosas. E, quando o reconheçam, têm de se dispor a assumir atitudes excecionais que não seriam as escolhidas em circunstâncias normais. Podem ter os mais variados receios das consequências eleitorais desse entendimento, que suporte, com o apoio alargado, um governo, dos dois ou só de um. A pátria de cada um está sempre acima do partido a que se pertença.

 

Advogado

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