Pedro Santana Lopes
Pedro Santana Lopes 23 de janeiro de 2019 às 21:05

Oligarquia

Não devemos julgar ninguém antes de se poder defender. Mas é demasiado o que tem acontecido em Portugal, com rombos de milhões e milhões de euros que são sempre os mesmos a pagar.
1.Em 2005, José Sócrates pediu a Vítor Constâncio, então Governador do Banco de Portugal, para prever quanto seria o défice orçamental no caso de o Governo, que chefiei, continuar em funções. Pressurosamente, o então Governador constituiu uma comissão para o efeito e lá chegaram à brilhante conclusão de que seria de 6,8385. Essa enorme fraude política, também denunciado por Manuela Ferreira Leite, permitiu ao Governo de Sócrates assumir esse número para no exercício desse ano, poder governar com mais folga e, ainda por cima, dizer, nos anos seguintes, que se deveu ao valor do défice.

 

Um governador assim tão diligente e com tão grande capacidade de previsão, certamente que poderia adivinhar facilmente o que iria acontecer com os créditos de maior dimensão concedidos pela CGD. E poderia ter reagido perante as notícias que foram bem noticiadas à época da tomada de poder no BCP também com financiamento da Caixa. Ou seja: o banco totalmente público financiou a compra de um banco privado, compra essa nada "amigável".

 

E tanto assim foi que o topo da administração da Caixa se passou para o topo do BCP. Mas não foi só o Banco de Portugal que consentiu. As autoridades europeias, sempre tão inquietas com a CGD, não se agitaram nem se opuseram.

 

O Parlamento também não se indignou e o então Presidente da República, que se saiba, também não considerou esse processo como um episódio gerador de uma dissolução parlamentar. Eram os anos do deslumbramento com o então Primeiro-ministro, todo poderoso, que levava o seu manto imperial a importantes áreas da sociedade.

 

A sociedade portuguesa a tudo assistia com a sua habitual complacência e, entretanto, começavam, tempos depois, a ruir, uma a uma, as várias unidades do nosso sistema financeiro.

 

2. O que agora tem sido divulgado por causa da auditoria à CGD é bem o reflexo de mais uma vez de várias vezes em que fica conhecida esta triste realidade nacional de uns poucos poderem tudo, ou quase tudo, e outros não conseguirem nada, ou quase nada! E essas realidades esmagam as energias criadoras de riqueza e prejudicam o desejável crescimento da economia.

 

Mais do que uma democracia, o sistema político português tem funcionado, muitas vezes, como uma oligarquia. Expulsam, destroem, manipulam, apoiam-se, promovem-se, caluniam. Não se pode olhar para o que se passou na banca como um caso isolado. Notícias falsas, sondagens manipuladas, inquéritos "ad homine", denúncias dirigidas, favorecimentos cruzados, perseguições impiedosas, ostracismos sociais, assim tem funcionado a sociedade portuguesa em muitos casos, ignorando os valores da transparência e da igualdade de tratamento.

 

Não devemos julgar ninguém antes de se poder defender. Mas é demasiado o que tem acontecido em Portugal, com rombos de milhões e milhões de euros que são sempre os mesmos a pagar.

 

Eu lembro-me bem de 2005 e dos anos seguintes. Mas o sistema oligárquico é bem mais antigo. Portugal vai corrigindo, a Justiça vai punindo esses desmandos, as elites vão-se renovando.

Há que ter esperança que essas situações não voltem a acontecer. Da banca às comunicações, passando pelos cimentos e pelas pescas, quanto valor não tem sido dizimado. E pelos mais arrogantes, pelos mais distantes, pelos mais intolerantes.

 

Os Portugueses são Europeus. Puxemos Portugal para este continente e para o que ele tem de melhor na organização económica, no modelo social, nos sistemas políticos. Não consintamos em aproximações a exemplos característicos de outros espaços continentais.

 

Temos direito a melhor e a mais.

 

Advogado

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