Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 23 de setembro de 2019 às 11:20

Em quem votaria o PSI?

Por mais que o fantasma das maiorias absolutas seja acenado, o mercado veria com muito bons olhos esse formato.

Há 4 anos, depois da formação do Governo do PS, com o apoio parlamentar do BE e da CDU, escrevi um artigo com o título "Os mercados não gostam de quem não gosta deles". Na altura, escrevi que "esperar que o mercado aplauda um Governo que inclua a extrema-esquerda é acreditar em ilusões". Durante estes 4 anos de governação da "Geringonça" as principais bolsas mundiais subiram bastante. A bolsa portuguesa caiu ligeiramente.

É verdade que a economia portuguesa cresceu, que se conseguiu um enorme progresso ao nível do défice, alcançando o valor mais baixo da nossa democracia. É indiscutível que o desemprego atingiu níveis historicamente baixos e que nos deve deixar a todos muito satisfeitos. É um facto assinalável que Portugal se consegue financiar hoje nos mercados internacionais a valores muito próximos do zero, com poupança de milhares de milhões de euros, em relação há alguns anos atrás. Mas comparemos o desempenho do PSI com alguns dos principais índices mundiais, desde as eleições legislativas de Outubro de 2015: o PSI caiu cerca de 4%, o CAC subiu perto de 25%, o DAX ganhou quase 30% e o S&P cresceu mais de 50%!

São números que não deixam margem para dúvidas. Em muitas vertentes, o desempenho da economia portuguesa foi bom, mas a evolução do mercado acionista foi muito fraca, sobretudo se compararmos com o que aconteceu na maior parte dos seus congéneres. Conforme escrevi no arranque deste artigo, não é surpreendente. Quando o governo é suportado por dois partidos que demonizam o mercado de capitais, vendo nele a fonte dos problemas quando poderia ser o veículo de soluções económicas, não poderíamos esperar algo diferente. Por vezes, parece quase pecado investir-se em bolsa, como se os investidores vestissem um fato vermelho, com cornos e uma forquilha, quais Diabos.

Que investidor estrangeiro tem confiança para investir num mercado em que o Governo olha para as grandes empresas como veículos fáceis para mais um imposto? Isso, naturalmente, tem consequências na decisão dos grandes investidores estrangeiros em (não) apostar na bolsa portuguesa.

Num país como os Estados Unidos, o desempenho do mercado acionista seria um dos temas primordiais de discussão nos debates da campanha eleitoral. Em Portugal, ainda não ouvi ninguém falar sobre o tema e já muitos argumentos económicos foram esgrimidos por vários atores políticos e jornalistas. É evidente que o desempenho durante o Governo anterior também foi dececionante, mas estranho seria se Portugal - sob intervenção da Troika - quisesse ter um desempenho semelhante aos restantes países.

Em quem votaria o PSI se tivesse esse privilegio, tendo em conta a sua própria saúde? Antes de mais, quero ressalvar que esta análise nada tem a ver com as minhas ideologias ou preferências partidárias que não são, seguramente, as mesmas da opção que aqui revelarei do PSI. Por outro lado, são colocados de lado quaisquer votos que não sejam "úteis", porque o índice, como pragmático que é (imagino sempre um número como um ser pragmático) teria que medir a consequência prática do seu voto.

A vitória do PS nas eleições legislativas é um dado adquirido. Mesmo os mais céticos das sondagens, não conseguem fugir a esta evidência. As dúvidas prendem-se com o facto de ter uma maioria absoluta ou não e, caso não o consiga, quem serão os parceiros que sustentarão o seu Governo. Por mais que o fantasma das maiorias absolutas seja acenado, o mercado veria com muito bons olhos esse formato governativo, com o PS a conseguir ver-se livre dos discursos anti-mercado do Bloco e do PCP. Um voto no PS, seria certamente o voto mais simples e linear dos mercados (mesmo que outros partidos mais à direita tenham discursos muito mais do agrado dos mercados, mas isso poderia implicar a perda da maioria para o PS).

O segundo cenário mais favorável para o PSI seria uma aliança do PS com o PAN. A minha pouca simpatia por este último partido faz-me escrever esta frase de uma forma trémula, mas na realidade esse cenário governativo, faria com que António Costa (e Pedro Nuno Santos, o grande diplomata na gestão dos acordos) tivesse apenas que ceder em questões ambientais e dos direitos dos animais, estando relativamente tranquilo nas restantes matérias. Seria uma solução que os mercados veriam com bons olhos e creio, sinceramente, a solução mais provável nesta altura.

Estes últimos parágrafos não parecem ser escritos por um homem de direita. Mas acreditem que são. E é intelectualmente honesto dizer que o declínio da bolsa portuguesa não começou no último Governo e tem responsabilidades à esquerda e à direita. Em breve, escreverei sobre os últimos 20 anos negros do nosso mercado. Mas tenho que terminar da mesma forma que comecei este e o artigo que escrevi há 4 anos atrás: acreditar que o mercado aplauda um Governo que inclua a extrema-esquerda é acreditar em ilusões. O mercado não gosta de quem não gosta dele.


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