Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 07 de maio de 2018 às 10:30

Falsas verdades

Olho para um grande investidor como um elefante. Quando se tenta mover rápido, está numa loja de porcelanas, tudo abana.
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Os primeiros tempos dos investidores nos mercados são marcados por uma série de crenças e de "verdades" que o tempo se encarrega de as negar. Alguns investidores descobrem isso em menos de um ano e outros continuam sem corrigir esses erros mais de uma década depois de terem iniciado a sua aventura na bolsa. Neste artigo, vou procurar enumerar algumas dessas "verdades" que conduzem os investidores a erros e perdas.

- As acções que distribuem um bom dividendo sobem nos últimos dias em que dão direito a esse dividendo. Isto não corresponde à realidade e, todos os anos, no caldeiraodebolsa.com assisto a investidores desalentados por a acção X ou Y estar a cair na véspera da distribuição de dividendos. Algumas vezes sobem, outras descem e outras mantêm-se sem grande variação. Esta é a realidade que os números comprovam. Obviamente esta ausência de um padrão acontece porque, no primeiro dia ex-dividendo, as acções tendem a corrigir o valor do dividendo (umas vezes mais outras menos, mas isso já é fruto da variação normal da cotação da acção nesse dia), pelo que a estratégia de comprar uma acção uns dias antes do dividendo para a vender depois disso não faz qualquer sentido.

- Tudo o que sobe desce e vice-versa. Acredito que esta ideia dos investidores vem mais do senso comum, sobretudo a ideia de que tudo o que sobe desce. Mas as leis da física não se aplicam aos mercados e há acções que voaram e nunca mais regressaram ao ponto de partida. O inverso, infelizmente, é mais perceptível na bolsa portuguesa com algumas acções que, quando caíam, os investidores defendiam que não valia a pena venderem pois um dia subiriam. Para sua desgraça, esse dia nunca chegou e algumas acções acabaram na lama, no zero ou no charco, conforme preferirem.

- Quando os grandes investidores estão a entrar numa acção, é um sinal positivo e hora de comprar o título. Os investidores acreditam que os gestores de fundos controlam o mercado e este obedece ao rumo que eles lhe quiserem dar. Cada vez mais acredito que isto é uma das ilusões do mercado. Ninguém é suficientemente forte para ser maior do que o mercado. Um dos exemplos mais paradigmáticos disto é o caso de Pedro Caldeira, antes do "crash" de 1987. Ele controlava mais de metade da bolsa portuguesa, conseguindo controlar o seu rumo mas, num instante, tudo ruiu como um baralho de cartas, sem compradores para vender as suas acções. Mas a melhor forma de desmontar esta ilusão é verificar o desempenho da maior parte dos fundos mundiais nos anos maus dos mercados: péssimos. Se o mercado obedece ao rumo que os fundos lhe querem dar, não era suposto os seus resultados serem fantásticos? E não era suposto a maior parte deles baterem os índices? A verdade é que tal não acontece.

- É mais fácil ter boas rentabilidades com muito dinheiro do que com pouco. Esta é uma das desculpas habitualmente utilizadas pelos pequenos investidores para justificar o mau desempenho das suas carteiras, mas tenho uma visão diametralmente oposta. Olho para um grande investidor como um elefante. Não pode reagir porque não é rápido e porque, quando se tenta mover rápido, está numa loja de porcelanas e tudo abana. Por exemplo, um grande investidor quando quer sair de uma posição, tem de ir fechando a posição antes do momento certo pois tem de antecipar esse movimento. Já um pequeno investidor, é uma espécie de leopardo, podendo sair e rapidamente de qualquer posição sem causar mossa. Esta rapidez de movimentação é uma arma poderosa dos pequenos investidores que, na grande maioria das vezes, é menosprezada e que os leva a agir como se ela não existisse.

- O investidor só perde dinheiro quando vende as acções. Não sei se esta é uma verdade para alguns ou é uma forma de esconderem os seus fracassos. Os investidores portugueses que compraram algumas acções e que estão com desvalorizações superiores a 80% não estão a perder dinheiro? Estão sim. E nem preciso de referir o custo de capital, custo de oportunidade e outras considerações sobre este tema. Se alguém acredita mesmo que um investidor só perde dinheiro quando vender as suas acções, tem a solução mágica para nunca perder dinheiro em bolsa: nunca vender nenhuma acção. Mesmo que caia 90%, pode sempre achar que não está a perder dinheiro. Mas está.

- Só consegue ganhar dinheiro a sério nos mercados quem passar o dia inteiro a acompanhá-los. Naturalmente um "daytrader" tem de acompanhar a par e passo o mercado pois o seu horizonte temporal de negociação é muito curto. Mas a esmagadora maioria dos investidores negoceia no médio e longo prazo. E, nesse horizonte temporal, muitas vezes acaba por ser contraproducente acompanhar as sessões do início ao fim, pois muitos investidores acabam por negociar mais do que deviam, procurando ler mais do que a pequena janela diária assim o permite. Com isto não quero dizer que quem dedica menos tempo à bolsa tem as mesmas hipótese de sucesso, mas a maior parte do trabalho vai muito mais além do que acompanhar as cotações. Passa por analisar gráficos ou relatórios e, sobretudo, por ir avaliando as decisões que tomámos como investidores, perceber quando tomámos as decisões mais correctas e o que falhou quando perdemos dinheiro. Mas achar que é necessário acompanhar a esmagadora maior parte do tempo das sessões para se ter sucesso em bolsa é uma "falsa verdade" ou, provavelmente, mais uma desculpa para justificar o seu próprio insucesso nos mercados financeiros.


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