Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 22 de julho de 2019 às 10:14

Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã

A bolsa portuguesa continua o seu “Bull Market”, com pouco sumo, pouca carne mas lá vai recuperando terreno perdido.

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"Ouvi dizer
Que o mundo acaba amanhã
E eu tinha tantos planos pra depois"
(Ornatos violeta)


Neste meu último artigo antes de uma paragem de verão, tentarei fazer um balanço do que tem sido este ano na bolsa portuguesa e tentar perceber como podem ser os próximos meses na praça nacional.

Não foi apenas pelo regresso aos palcos, em dois magníficos concertos, que escolhi um trecho da mais popular música dos Ornatos Violeta. Na verdade, o ano de 2019 tem sido mais uma machadada nas teses de que o fim do mundo dos mercados tinha chegado. Tem sido um ano extraordinário nas principais bolsas mundiais, com os touros a quererem transcrever a famosa frase de Mark Twain: "As notícias da minha morte são manifestamente exageradas."

Quantas vezes nos últimos 10 anos já ouvimos notícias e previsões sobre a morte do "Bull Market" nos Estados Unidos? Muitas. Muitas, mesmo. Como sempre, a ideia de ficar na história como a pessoa que adivinhou o topo passa na cabeça de muitos. Mas a história dos mercados está cheia de heróis que tentam adivinhar os topos, apanhando facas a cair e cortando dedo após dedo até nada mais lhes restar. Desde 2014 que - quase diariamente - leio ou ouço que o "Bull Market" americano está prestes a chegar ao fim, com as pessoas a esquecerem-se daquele velho axioma dos mercados que diz que as subidas (e as quedas) podem sempre durar muito mais do que nós imaginamos. Para quê a pressa de antecipar um topo? As tendências são tão duradouras que, mesmo chegando com um ano de atraso, ainda se vai a tempo de se ganhar muito dinheiro nos mercados.

A bolsa portuguesa continua o seu "Bull Market", com pouco sumo, pouca carne mas, paulatinamente, lá vai recuperando terreno perdido. Os dois testes à zona do suporte dos 5.000 pontos do PSI-20 foram ultrapassados com sucesso e, enquanto esse suporte não for quebrado, mantenho-me otimista porque nenhum sinal de fraqueza foi dado.

A grande notícia da última semana foi a subida forte da Sonae SGPS. Quem acompanha com regularidade os meus escritos, sabe que não acredito num "Bull Market" na bolsa portuguesa sem o contributo da Sonae que dança, historicamente, uma valsa compassada com o PSI-20. Por isso, as recentes subidas da Sonae não são apenas boas notícias para o título mas também para as restantes ações nacionais. É muito importante que consiga romper, consistentemente, a resistência dos 0,91 euros para que os touros consigam voltar ao controlo da Sonae e o PSI-20 ganhe a sua parceira de dança. Ações muito importantes da nossa praça já têm tido subidas bem fortes, como o caso da Jerónimo Martins ou o BCP, que já subiu mais de 30% nos últimos 4 meses.

Uma das grandes novidades deste ano tem sido a colocação, por parte de Portugal, de dívida pública em prazos mais curtos a taxas negativas, algo que quase desafia os princípios económicos mais ortodoxos. E, mesmo nos prazos mais alargados, Portugal tem conseguido colocar dívida abaixo de 1%. Tal como referi no meu último artigo, é uma oportunidade histórica para Portugal que, por força disso, vai ter uma enorme folga orçamental nos próximos anos e que deve ser aproveitada bem melhor do que tem sido.

O que falta à bolsa portuguesa para voar sem medo? O regresso dos estrangeiros ao nosso mercado. Aquilo que aconteceu na última década no mercado de capitais portugueses foi uma verdadeira machadada na credibilidade do mesmo. A implosão do BES foi apenas um dos exemplos, o PSI-20 ter menos do que 20 empresas há vários anos é outro, mas sobretudo a forma como o mercado de capitais é visto por quem governa, quase parecendo um autêntico demónio que serve apenas para que as grandes empresas sejam mais taxadas quando uma contestação exige que se encontrem mais uns milhões perdidos. Quem sabe um dia perceberão que uma Economia forte precisa de um mercado de capitais forte.

Continuo otimista em relação à bolsa portuguesa. Confesso que, em maio e em junho, algumas vezes esta minha convicção sofreu fortes abalos mas foi a disciplina que a análise técnica me obriga que me salvou, mantendo-me fiel à ideia de que enquanto o PSI não quebrasse o suporte dos 5.000 pontos, os touros estariam no controlo. Mas não tenho dúvidas de que, naquele momento, muitas "mãos fracas" foram abanadas em mais um movimento clássico do mercado.

Agora é hora de trocar as EDPs pelas tardes de praia, substituir os suportes pelos jantares com quem gostamos, esquecer o Nasdaq e pensar no descanso, trocar a adrenalina e o stress diário dos mercados pelo "dolce fare niente", substituir o piscar das luzes verdes e vermelhas do ecrã das cotações pelos tons únicos do pôr do sol. Desligar o som da CNBC ou a Bloomberg e ouvir Ornatos, Rodrigo Leão ou Tiago Bettencourt. Depois estarei de volta. Aos mercados e à vossa companhia.



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