Ramon O’Callaghan
Ramon O’Callaghan 17 de outubro de 2018 às 21:00

O advento da economia partilhada

Serviços como a Airbnb ou a Lyft tornaram-se tão bem-sucedidos porque se concentraram na criação de plataformas nas quais as pessoas se sentem seguras e protegidas.

Serviços como a Uber e o Airbnb são dos exemplos mais conhecidos da economia partilhada. Mas há outras indústrias a adotar serviços de partilha e a descobrir o sucesso do processo: a Boataffair, que oferece um serviço boutique de aluguer de barcos, o DeskNearMe, que permite arrendar o seu espaço de escritório ou, em Portugal, a MUB Cargo, uma empresa criada por antigos alunos da Porto Business School, que liga pessoas que necessitam de transportar cargas e empresas de transportes disponíveis para o fazer.

 

April Rinne, autoridade mundial na economia partilhada e uma das oradoras da Vertex (a conferência anual da Porto Business School, que decorreu há umas semanas), referia estes casos como exemplos baseados no conceito de "acesso sobre a propriedade": a partilha de ativos subutilizados, muitas vezes por via de plataformas de IT, económica e ambientalmente mais eficientes. De facto, partilhar, em vez de possuir, permite economizar, gerar rendimentos, diminuir a pegada de carbono, aumentar o capital humano, impulsionar o sentimento de comunidade, conhecer novas pessoas, gerar confiança (incluindo em estranhos), privilegiar a escolha e a conveniência. E esta é uma proposta poderosa para indivíduos, empresas e sociedade, em geral.

 

Se os automobilistas pararem de comprar os seus próprios veículos e, em vez disso, se registarem num serviço de "car sharing", aluguer de carro ou usarem a app da Uber, cada veículo individual terá muito mais utilidade. Desta forma, a indústria automóvel vai sentir cada vez mais pressão para produzir menos e produzir carros melhores, que resistam a um uso constante. Produzir menos bens duráveis será claramente melhor para o ambiente e beneficiará também os consumidores, diminuindo os custos.

 

Até hoje, a grande maioria das atividades na economia compartilhada concentrou-se no setor privado: start-ups, investimentos privados e tudo o que possa girar em torno do grande negócio. No entanto, existe um conjunto igualmente significativo de oportunidades para os setores público e social. Quando colocado em prática corretamente, o modelo de economia partilhada cobre um leque variado de problemas sociais, incluindo isolamento, excesso de consumo e escassez económica. Também cria capital humano - as conexões dentro de uma comunidade que ajudam a aumentar a resiliência e trazem as pessoas de volta às relações pessoais. Vejam-se os casos de Vancouver, Bogotá, Seul e Amsterdão que são já exemplos de referência em matéria de "Cidades Partilhadas".

 

Um dos maiores desafios que a economia partilhada enfrenta é a regulamentação desatualizada. Na sua maioria, as leis atuais foram elaboradas para uma era de consumo de massa e não contemplaram os modelos de negócios que encontramos na economia de partilha, por isso, precisamos de aprender a regulamentar de forma responsável e adequada aos modelos digitais e de uso partilhado. Por exemplo, um carro usado em regime de partilha pode retirar entre 9 e 13 carros fora da estrada, mas como podemos assegurar isso? E como devemos tributar as diferentes atividades relacionadas? Estas questões representam desafios significativos, mas também oportunidades para legisladores e empresas.

 

Os setores público, privado e social partilham uma oportunidade incomparável de se unirem e criar valor, mutuamente. Mas, para "fazer bem", os legisladores devem estar comprometidos e ser proativos e, ao mesmo tempo, os entusiastas da economia partilhada precisam de ver os legisladores como aliados.

 

Para as empresas que desejam envolver-se na economia partilhada, um dos aspetos mais importantes de todo o processo é a confiança. Serviços como a Airbnb ou a Lyft tornaram-se tão bem-sucedidos porque se concentraram na criação de plataformas nas quais as pessoas se sentem seguras e protegidas.

 

À medida que mais pessoas em todo o mundo se ligam através dos smartphones, espera-se que os custos de transação associados ao uso dos serviços compartilhados diminuam e que este tipo de serviços aumente. Uma pesquisa da Nielsen indicou que 68 por cento dos entrevistados, a nível global, estariam dispostos a compartilhar ou alugar artigos que possuem, enquanto 66 por cento disseram que estariam dispostos a alugar a outros. A PwC identificou cinco principais setores com alto potencial de crescimento - viagens, partilha de automóveis, finanças e streaming - e estima que esses setores, por si só, aumentarão a economia partilhada em 335 mil milhões de dólares, em 2025.

 

O que significa isto para as empresas e para futuros empreendedores? Essencialmente, que muitas empresas de sucesso no futuro serão baseadas na ideia de partilha, acesso e colaboração. Os negócios existentes terão assim de ser adaptáveis para permanecer relevantes e necessitarão de continuar focados em fornecer experiências autênticas e personalizadas aos consumidores.

 

Embora o conceito de economia partilhada possa parecer apenas um conceito que está na moda, para alguns, não há dúvida de que a procura por serviços compartilhados veio para ficar, e as empresas fariam bem em dar resposta a esta procura, nos anos vindouros.

 

Porto Business School

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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