Ramon O’Callaghan
Ramon O’Callaghan 19 de fevereiro de 2019 às 20:01

O crepúsculo do liberalismo, S. Bento e mais além

Embora o liberalismo tenha sido a ideologia dominante do Ocidente durante séculos, as democracias ocidentais enfrentam agora dificuldades, confrontadas com crescentes desigualdades, perda de confiança no Governo e intensas divisões políticas.

Das três ideologias dominantes do século XX - fascismo, comunismo e liberalismo - apenas a última mantém dominância. A premissa subjacente do liberalismo é a da expressão individual: os cidadãos são indivíduos portadores de direitos a quem deve ser dado o máximo de espaço possível para a concretização dos seus sonhos, enquanto que o papel do governo é o de garantir os seus direitos.

 

Embora o liberalismo tenha sido a ideologia dominante do Ocidente durante séculos, as democracias ocidentais enfrentam agora dificuldades, confrontadas com crescentes desigualdades, perda de confiança no Governo e intensas divisões políticas.

 

Alguns ligam o declínio do liberalismo à decadência da cultura ou à ascensão do grande Governo. No livro "Why Liberalism Failed", Patrick Deneen, professor da Universidade de Notre Dame, atribui o fracasso do liberalismo ao seu sucesso anterior, especificamente a duas realizações bem-sucedidas, mas problemáticas: 1) liberdade suprema e 2) libertação do indivíduo de lugares, relacionamentos, associações e identidades.

 

A liberdade suprema está, atualmente, a apagar o capital social acumulado ao longo dos séculos deteriorando e fragmentando a sociedade. A comunidade orgânica está a ser substituída por uma coleção de indivíduos autónomos, que persegue os seus próprios interesses. O liberalismo é por isso visto como uma "anti-cultura" que destruiu os costumes geracionais, práticas e rituais que tradicionalmente formam uma cultura.

 

Alguns argumentam que, no início, o liberalismo teve sucesso porque avançou sobre as realizações dos tempos pré-liberais, em particular as da Cristandade. As instituições da família e da fé que permitiram muita estabilidade para compensar a tempestade liberal e materialista.

 

Neste crepúsculo do liberalismo, o que fazer a seguir?

 

Por oposição ao individualismo, Deneen afirma que o futuro está nas comunidades locais radicalmente descentralizadas, onde o verdadeiro significado da cultura pode ser encontrado novamente. Deneen prefere um retorno às "formas beneditinas atualizadas" das comunidades monásticas católicas. Esta "Opção de S. Bento" é também proposta pelo autor Rod Dreher, segundo o qual a "guerra da cultura" está perdida e é chegada a hora de encontrar uma forma de sobreviver numa era "pós-cristã". Tal como quando S. Bento deixou a Roma decadente no século VI e partiu para o ermo, os cidadãos preocupados deveriam "libertar--se culturalmente" de uma sociedade podre, que está perdida. Assim, em vez de se opor à onda de secularismo que castiga a sociedade, é melhor "construir Arcas que permitam superar as disputas" que envolvem comunidades e permitirão que os membros se desenvolvam na esperança de tempos melhores (uma espera, admite, que pode levar séculos). Estes autores e muitos conservadores cristãos acreditam que, se as pessoas voltassem para essas comunidades, voltariam a um caminho moral. Na sua perspetiva, a sociedade dominante está errada e a democracia está equivocada.

 

Não é de surpreender que tal "chamamento" tenha sido criticado como arrogante e antidemocrático.

 

Uma tradição liberal que estes autores não reconhecem é o pluralismo, na qual muitos liberais ainda se reveem, hoje em dia. O pluralismo sustenta que existem numerosas visões do mundo, irredutíveis e que competem entre si, e que o objetivo da política é o de encontrar uma forma de fazê-las funcionar, em conjunto. Por isso, o que necessitamos não é um recolhimento para as nossas próprias comunidades, que pode agravar a polarização da sociedade. O que necessitamos é de políticas que permitam construir pontes entre as comunidades.

 

Há sinais de que o mundo caminha numa direção pós-liberal. Na economia, assinala-se uma mudança do capitalismo de mercado liberal sem restrições para a justiça económica e uma maior reciprocidade de lucro e propósito social. Na sociedade, assinala-se uma mudança do individualismo desenfreado e do igualitarismo de cima para baixo imposto pelo Estado para a solidariedade social e relações fraternas e recíprocas. E, politicamente, sinaliza-se uma mudança da política minoritária de interesses pessoais e identidade de grupo exclusiva para uma política de maioria, baseada num equilíbrio de interesses e de uma identidade social partilhada. Por outras palavras, a política do bem comum, que pode superar os binários que dividem o mundo inteiro: jovens vs. velhos, proprietários vs. trabalhadores, nativos vs. imigrantes, cidade vs. campo, fiéis vs. seculares.

 

Como Adrian Pabst, diretor do Centro de Estudos Federais da Universidade de Kent, afirma "Um pós-liberalismo plausível e construtivo tem a ver com discernir os objetivos positivos que os seres humanos podem partilhar. Em sociedades cada vez mais heterogéneas, uma maior coesão social e cultural requer uma busca plural pelo bem comum. A nova política de pertença requer uma conceção positiva de identidade, combinando o patriotismo cívico com uma perspetiva internacionalista. Ao substituir o moralismo de valores liberais por virtudes de humildade, coragem, generosidade, lealdade e fraternidade, podemos renovar a arte e a diplomacia na busca por uma ordem mundial mais justa."

 

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