Mark J. Roe
Mark J. Roe 04 de dezembro de 2015 às 20:30

A ameaça imaginária do curto-prazo

A ideia de que os mercados financeiros são demasiado centrados no curto prazo está a ganhar terreno na comunicação social e entre os académicos. E agora está a atrair atenção política nos Estados Unidos.

A obsessão dos investidores com os retornos de curto prazo, de acordo a nova doutrina estabelecida, obriga os Conselhos de Administração e os gestores das empresas a tentarem conseguir resultados trimestrais impressionantes às custas de investimentos importantes a longo prazo. A investigação e a inovação sofrem as consequências, como o investimento em instalações e equipamento a longo prazo. Da mesma forma, o pensamento de curto prazo leva as grandes empresas a comprarem as suas acções privando-as, assim, da liquidez que precisam para investimentos futuros.

 

Nada disto é uma boa notícia para a economia – pelo menos, não seria, se fosse real. Com base numa análise aprofundada, as supostas consequências negativas do curto-prazismo dos investidores parecem não se verificar de todo.

 

Enquanto os investidores institucionais negoceiam acções regularmente e, por vezes, rapidamente, as instituições financeiras como a Fidelity Investments, a Vanguard e outros fundos de investimento mantiveram as suas posições em acções por períodos entre 12 e 15 meses, durante décadas. Além disso, ainda que se tenha atribuído muita importância a um novo sector marginal de agentes bolsistas que compram e vendem acções em nanosegundos, mediante programas informáticos, a crença de que essas rápidas transacções conduzidas pelo computador impossibilitam – ou mesmo dificultam – a adopção por parte dos gestores das empresas de uma perspectiva de longo prazo que não seja suportada pelos dados.

 

Nos Estados Unidos, nem a investigação e inovação nem o investimento em geral estão a diminuir. De facto, muitas indústrias fazem investimentos de longo prazo, não obstante, os seus accionistas de curto prazo.

 

Por exemplo, as empresas farmacêuticas não podem desenvolver novos produtos numa base trimestral; devem funcionar com horizontes temporais multi-anuais. A indústria petrolífera não pode abrir e fechar campos petrolíferos numa base trimestral; as empresas devem gastar uma década ou mais a investir no desenvolvimento de novos campos. E para se manter na vanguarda da inovação, os gigantes tecnológicos como a Apple, a Intel, a Amazon e a Google continuam a trabalhar no longo prazo. Se estas indústrias e empresas podem adoptar a visão de longo prazo, o que está a impedir outras empresas de o fazerem?

 

Claro, é certo que estas indústrias e empresas não podem sempre servir a economia de forma justa e bem. Mas os problemas associados com elas – da subida de preços dos medicamentos que salvam vidas até graves prejuízos ambientais – não são consequência de que os gestores estejam excessivamente centrados nos resultados de curto prazo dos mercados accionistas.

 

O recurso excessivo à negociação de acções mediante programas informáticos é uma utilização deficiente dos recursos, mas raramente prejudica a gestão eficaz por uma simples razão: os investidores que negoceiam, apenas fazem isso; não participam na gestão das empresas e, por vezes, nem mesmo votam para a direcção. Tendo isto em conta, os gestores e os Conselhos de Administração podem ignorar a actividade de negociação de curto prazo – e costumam fazê-lo.

 

Os críticos podem assinalar que a compensação da gestão está tipicamente relacionada com o preço das acções da empresa, o que significa que as transacções a curto prazo poderão afectar a remuneração dos gestores. Mas, ainda que isto seja verdade, não tem de ser; os Conselhos de Administração podem optar por vincular - e, por vezes, fazem-no – as retribuições dos gestores aos resultados das acções a mais longo prazo, em vez do actual desempenho.

 

Além disso, o "curto prazo" não tem que estar conotado com algo pernicioso. Pode significar flexibilidade e adaptabilidade. As medidas criticadas como "pensamento a curto prazo" podem, em alguns casos, ser encaminhadas a abandonar empresas antiquadas e tentativas de soluções fracassadas, com o que ajudam a empresa a ajustar-se a uma economia em transformação. A cadeia de aluguer de filmes Blockbuster não estava a pensar a curto prazo quando, vendo a ascensão da venda por correio de DVD e dos vídeos em "streaming" da Netflix, decidiu fechar as suas lojas físicas.

 

Os receios de que as recompras de acções estejam a privar as empresas saudáveis e promissoras da liquidez necessária para o investimento e investigação estão, da mesma forma, fora de lugar. É certo que as recompras podem prejudicar a capacidade de uma determinada empresa para investir no seu próprio futuro, causando perdas para os colaboradores e gestores. Mas essa empresa – muitas vezes, uma empresa estabelecida há muito tempo – frequentemente deixou de ser o melhor local para essa liquidez. De facto, a liquidez deve abandonar as empresas retrógradas com futuros pouco prometedores e acabar onde pode ser utilizada de forma mais eficaz, beneficiando a economia como um todo.

 

Criticar o curto-prazismo tem grande ressonância, porque justifica proteger aqueles aos quais interessa o status quo – incluindo os trabalhadores manuais com elevados salários, os presidentes-executivos e os gestores superiores bem pagos e os directores com posições de prestígio – contra as mudanças rápidas. Para quem tem uma situação vantajosa, a mudança pode ser incómoda. Ainda assim, poucos são os que desejam consciente ou explicitamente opor-se à mudança por puro auto-interesse (e aqueles que o fazem não deverão ser bem-sucedidos). Mais vale que adoptem lógicas mais nobres, uma das quais é o suposto perigo do "curto-prazismo".

 

Provavelmente não seja uma coincidência que uma retórica similar tenha predominado durante muito tempo no discurso empresarial e político na Europa Ocidental, onde os trabalhadores e as empresas gozam de maior protecção do que nos Estados Unidos. Mas agora abriu caminho até à campanha para as eleições presidenciais dos Estados Unidos, ao ter atacado a prometedora candidata presidencial democrata Hillary Clinton o curto-prazismo nos mercados financeiros. Isto – em conjunto com as expressões de preocupação pelo curto-prazismo por parte dos especialistas e reguladores conservadores – indica que os Estados Unidos em breve podem ser objecto de pressões mais fortes para que reduzam o ritmo da mudança no mundo empresarial. E isso não deverá ser bom para a economia a longo prazo.

 

Mark Roe é professor na Harvard Law School.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.
www.project-syndicate.org 
Tradução: Raquel Godinho

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