Kaushik Basu
Kaushik Basu 30 de julho de 2018 às 14:00

Um curso intensivo sobre moeda para os políticos

Suponhamos que Trump está certo - que a China ainda está a vender os seus produtos aos consumidores americanos com prejuízo. Nesse caso, o meu conselho é simples: devia enviar uma nota de agradecimento ao presidente chinês Xi Jinping.

Um dos principais impulsionadores das políticas proteccionistas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é a sua crença de que a China enfraqueceu artificialmente a sua moeda para fazer dumping nos Estados Unidos. Trump insistiu muitas vezes nessa questão durante a sua campanha presidencial. Mas agora que está a tomar medidas para reduzir o défice comercial com a China, pode haver consequências graves para a economia mundial.

 

Trump está a cometer um erro. No entanto, os seus pontos de vista sobre a moeda chinesa não devem ser uma surpresa, uma vez que a gestão da taxa de câmbio é uma das áreas mais complexas da formulação de políticas económicas.

 

Aprendi isto da maneira mais dura enquanto fui conselheiro do governo indiano, de 2009 a 2012. Depois de a Standard & Poor's ter cortado o rating dos Estados Unidos de AAA para AA + a 5 de Agosto de 2011, fiquei surpreendido ao ver o dólar a ganhar força. Demorei um pouco para perceber o que estava a acontecer.

 

Os investidores estavam preocupados que o corte pudesse provocar turbulência global e começaram a tirar o seu dinheiro dos mercados emergentes. Em épocas anteriores, os investidores teriam colocado parte do seu dinheiro em economias europeias fortes. Mas, como a maioria desses países havia passado a política monetária para o Banco Central Europeu e já não podia imprimir o seu próprio dinheiro, havia um risco maior de incumprimento.

 

Pelo contrário, os EUA tinham a sua própria moeda e banco central, o que lhes permitia cumprir os seus compromissos em quase todas as circunstâncias. E os investidores também ficaram tranquilos pelo facto de a segunda economia mais poderosa do mundo, a China, ter interesse num dólar relativamente forte e estável, já que uma grande parte das suas enormes reservas cambiais era em dólares. Daí o paradoxo: embora a fonte do problema fosse os EUA, o dinheiro correu para os EUA, fortalecendo o dólar.

 

Tenho mantido um grande interesse na gestão da taxa de câmbio desde este episódio. Em Maio de 2013, quando era economista-chefe do Banco Mundial, o meu colega Aristomene Varoudakis e eu publicámos um estudo que analisava diferentes políticas cambiais num vasto conjunto de países. Descobrimos que, ocasionalmente, quase todos os países compram e vendem nos mercados de câmbio para aumentar ou impulsionar o valor da sua própria moeda. Na maioria dos casos, isso não é feito directamente, mas sim pelos bancos comerciais que actuam a pedido dos bancos centrais.

 

A China, por sua vez, tem perseguido uma política cambial interessante ao longo das décadas. Nos anos 1980 e 1990, não há dúvida de que a China manteve a sua moeda artificialmente desvalorizada para poder vender mais bens no estrangeiro. De meados da década de 1990 a 2005, o yuan estava praticamente atrelado ao dólar dos EUA em termos nominais, e o dólar registou uma apreciação real. A lógica era simples: ao comprar dólares, a China poderia elevar o valor relativo do dólar, o que significava que o valor do yuan cairia. Assim, o Banco Popular da China acumulou enormes reservas de dólares durante este período.

A Suíça seguiu uma estratégia semelhante - embora de curta duração - depois da crise financeira global de 2008, e particularmente depois de Setembro de 2011. Durante esse período, o Banco Nacional Suíço conseguiu baixar o valor do franco suíço ao mesmo tempo que acumulava um enorme volume de reservas cambiais.

 

É uma boa estratégia? No caso da China, permitiu que as empresas do país exportassem mais, mas só porque estavam a vender a preços abaixo do custo, incorrendo em perdas. Essa abordagem faz sentido quando se vende mercadorias que geram hábito, porque se pode aumentar os preços e compensar as perdas anteriores assim que o cliente se torna dependente do produto. Se estivéssemos a lançar um jornal na era da impressão, era inteligente vendê-lo abaixo do custo até termos construído uma grande base de leitores leais.

 

Tal como acontece com certos produtos, comprar a um país também pode ser um hábito. Depois de termos dominado todas as regras e regulamentos, assim como a cultura e a política de um parceiro comercial, temos interesse em continuar a fazer negócios com esse país.

 

Com os EUA e muitos outros países agora interessados em comprar à China, os políticos chineses já não precisam de manter uma moeda desvalorizada. E, de facto, a China tem estado a reduzir as suas reservas cambiais desde meados de 2014. Embora o yuan tenha sido mantido artificialmente fraco, agora há muitos economistas que acreditam que, na verdade, a moeda está sobrevalorizada. No fim de contas, é o que se esperaria para o vendedor de um bem viciante.

 

Neste contexto, a guerra de tarifas de Trump chega demasiado tarde e revelar-se-á contraproducente. Mas suponhamos que Trump está certo - que a China ainda está a vender os seus produtos aos consumidores americanos com prejuízo. Nesse caso, o meu conselho é simples: devia enviar uma nota de agradecimento ao presidente chinês Xi Jinping.

 

Kaushik Basu, antigo economista-chefe do Banco Mundial e assessor económico do governo indiano, é professor de Economia na Cornell University.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

Marketing Automation certified by E-GOI