Conteúdo exclusivo para Assinantes Negócios Premium Se já é assinante, faça LOGIN
Jim O'Neill
Jim O'Neill 13 de setembro de 2018 às 14:00

A economia global dez anos depois

A menos que consigamos recuperar um mundo no qual os lucros das empresas servem realmente um propósito, a probabilidade de mais choques económicos, políticos e sociais permanecerá intoleravelmente alta.

Muito será dito sobre o décimo aniversário da crise financeira de 2008, e por isso vou concentrar-me na economia global, que não tem tido uma evolução tão fraca como muitos parecem pensar.

 

De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a taxa de crescimento real do PIB mundial (ajustada à inflação) foi de 3,7% entre 2000 e 2010, e teria sido próxima de 4%, se não fosse a chamada Grande Recessão. Em comparação, o crescimento anual médio até agora, nesta década, foi de 3,5%, ligeiramente inferior à taxa média dos anos 2000, mas acima da taxa de 3,3% das décadas de 1980 e 1990.

 

A meu ver, a China contribuiu ainda mais para o crescimento global nesta década do que na anterior, tendo o seu PIB quase triplicado, de 4,6 biliões de dólares, no final de 2008, para 13 biliões de dólares hoje. Esses 8 biliões de dólares adicionais são responsáveis por mais de metade do aumento do PIB global na última década.

 

Há muito que atribuo a crise financeira a desequilíbrios dentro e entre os Estados Unidos e a China, as duas maiores economias do mundo. Enquanto o défice de conta corrente dos EUA estava próximo de 5% do PIB em 2008 (e próximo de 7% em alguns trimestres de 2007), a China mantinha um excedente de 9% ou mais.

 

Depois da crise, previ que os EUA e a China teriam, até certa medida, de trocar de lugar ao longo da década seguinte. A China precisava de poupar menos e gastar mais; e os EUA precisavam de poupar mais e gastar menos. A julgar pelas suas contas correntes hoje, ambos os países parecem ter feito progressos significativos. Em 2018, o excedente da China terá caído para cerca de 0,5-1% do PIB, o que é notável, considerando que o seu PIB mais do que duplicou desde 2008. Já os EUA registarão um défice de 2-2,5% do PIB, o que está dentro do intervalo de 2-3% que muitos economistas consideram sustentável.

 

Outros indicadores globais, porém, não são tão encorajadores. Em 2008, a Zona Euro teve um défice de conta corrente de 1,5% do PIB, com a Alemanha a registar um excedente de cerca de 5,5%. Mas o grande excedente da Alemanha deveu-se em larga medida aos grandes défices noutros países da Zona Euro, e esse desequilíbrio deu origem à crise do euro depois de 2009. De forma preocupante, o excedente da Alemanha subiu para cerca de 8% do PIB. Como resultado, a Zona Euro tem agora um excedente próximo a 3,5%, apesar de - e provavelmente por causa de - anos de fraca procura interna nos países do Mediterrâneo. Este é certamente um sinal de que há mais instabilidade pela frente. De facto, a crise que se está a desenvolver lentamente em Itália pode ser um prenúncio do que espera o bloco.

 

Um elemento central da economia antes da crise financeira foi a bolha imobiliária nos Estados Unidos, que resultou da invenção, por parte do sector financeiro, de métodos cada vez mais complexos (e duvidosos) de reciclagem de poupanças globais. Uma década depois, vale a pena mencionar que muitas "cidades globais" como Londres, Nova Iorque, Sidney e Hong Kong têm agora preços que só uma pequena minoria dos seus residentes permanentes consegue pagar, devido à crescente procura por parte de investidores estrangeiros ricos.

Mas este ano há sinais crescentes de que os preços das casas nessas e noutras cidades podem sofrer uma reversão. Isso pode simplesmente reflectir as acções tomadas pelos governos municipais para garantir habitação mais acessível aos seus residentes; mas também pode indicar que os novos compradores estão a tornar-se mais escassos.

 

Naturalmente, uma descida gradual nos preços das casas nessas cidades seria um desenvolvimento bem-vindo em termos de igualdade económica e social. Mas a descida dos preços das casas produz sempre efeitos colaterais prejudiciais.

 

Tendo assumido agora a presidência da Chatham House, estou ansioso para encorajar mais pesquisas sobre a forma como factores como os custos da habitação se relacionam com questões maiores de desigualdade de rendimentos e riqueza. Na minha opinião, o mundo precisa de métricas muito melhores para avaliar essas interconexões.

 

Por exemplo, é evidente que a desigualdade de riqueza aumentou muito mais do que a desigualdade de rendimentos na última década, com o rápido aumento dos preços dos imóveis urbanos a desempenhar aí um papel central. Em muitos países desenvolvidos, incluindo o Reino Unido, a desigualdade económica é um problema sério. No entanto, em termos de rendimentos, os dados mais recentes mostram que a desigualdade caiu de facto para os níveis (ainda muito altos) dos anos 1980.

 

Se as percepções comuns sobre a desigualdade tendem a inflacionar o que está realmente a acontecer é porque os grandes executivos de muitas empresas estão a ganhar cada vez mais em relação aos trabalhadores. Esses pacotes de remuneração podem ser definidos no contexto do desempenho do preço das acções, mas isso não os justifica.

 

Esta é outra questão que espero que seja estudada na Chatham House. A estranha recuperação do mercado accionista, que tem vindo a acontecer quase ininterruptamente desde 2009, foi impulsionada, em grande parte, pelas recompras de acções feitas por grandes empresas. Em alguns casos importantes, as empresas emitiram dívida para financiar a recompra das suas acções.

 

Será que a crescente prevalência de recompras explica porque é que o investimento fixo e a produtividade permaneceram tão fracos em todo o Ocidente? E será que esses factores macroeconómicos explicam algumas das convulsões políticas nas democracias ocidentais, como o Reino Unido e os EUA, nos últimos anos?

 

Em ambos os casos, suspeito que a resposta seja sim. A menos que consigamos recuperar um mundo no qual os lucros das empresas servem realmente um propósito, a probabilidade de mais choques económicos, políticos e sociais permanecerá intoleravelmente alta.

 

Jim O'Neill, ex-presidente da Goldman Sachs Asset Management, é presidente da Chatham House.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

Conteúdo exclusivo para Assinantes Negócios Premium
Assine e aceda sem limites, no pc e no smartphone Assinar por 1€ por 1 mês
Notícias só para Assinantes
Análise, informação independente e rigorosa..
Para saber o que se passa em Portugal e no mundo, nas empresas, nos mercados e na economia.
Notícias e conteúdos exclusivos no website e aplicações móveis
Newsletter diária exclusiva para assinantes
Acesso ao epaper a partir das 22:00
Saiba mais
pub