Mark J. Roe
Mark J. Roe 04 de junho de 2015 às 20:00

Canalizar as aspirações da China

A China começou a fortalecer os seus músculos económicos e militares nos últimos anos. No Mar da China meridional, construiu uma série de bases quase militares nas pequenas Ilhas Spratly com navios de guerra para as defender. Ao mesmo tempo, está a patrocinar o novo Banco Asiático de Investimento em Infra-estrutura (AIIB, na sigla inglesa) - uma instituição internacional que ameaça rivalizar com o Banco Mundial na Ásia - e convenceu países como o Reino Unido, Alemanha e França a juntarem-se a si, apesar das objecções vocais do Estados Unidos.

A China começou a fortalecer os seus músculos económicos e militares nos últimos anos. No Mar da China meridional, construiu uma série de bases quase militares nas pequenas Ilhas Spratly com navios de guerra para as defender. Ao mesmo tempo, está a patrocinar o novo Banco Asiático de Investimento em Infra-estrutura (AIIB, na sigla inglesa) - uma instituição internacional que ameaça rivalizar com o Banco Mundial na Ásia - e convenceu países como o Reino Unido, Alemanha e França a juntarem-se a si, apesar das objecções vocais do Estados Unidos.

 

É fácil confundir a exibição do poderio militar da China com as suas iniciativas económicas e diplomáticas, como o AIIB, como algumas autoridades norte-americanas parecem ter feito. Embora a ascensão da China mereça algum cuidado, não faz sentido resistir ao país para sempre; às vezes, é mais sensato deixá-lo sossegado.

 

Ainda que as acções militares e económicas da China estejam interligadas, essas ligações proporcionam uma abertura para as últimas mitigarem as primeiras. De facto, uma maior flexibilidade da política americana colocaria esses dois aspectos da política chinesa uns contra os outros.

 

Os Estados Unidos, contudo, tentaram dificultar a ascensão económica e diplomática da China. Em 2010, muito antes do AIIB ter sido introduzido, o Fundo Monetário Internacional concordou em dar à China e outros países em rápido crescimento mais responsabilidade financeira e uma maior influência sobre as decisões importantes. A "quota" da China no FMI - estabelecida quando era uma economia muito menor - deu-lhe apenas 4% dos votos e da responsabilidade financeira; mas a China é agora quatro vezes mais importante para a economia mundial.

 

As reformas propostas pelo FMI, destinadas a reflectir o novo peso da China e de outros mercados emergentes na economia global, foram estruturadas de forma a ser concedida mais influência, mas também a exigência de contribuir com mais dinheiro para projectos de desenvolvimento em todo o mundo. Os Estados Unidos continuariam a deter uma percentagem decisiva dos votos.

 

Mas, embora as reformas tenham sido aprovadas com um apoio esmagador, incluindo de diplomatas norte-americanos, ainda estão por implementar, porque o Congresso dos Estados Unidos ainda tem de aprová-las. Desde então, a economia chinesa quase duplicou de tamanho - tornando obsoletas as reformas acordadas.

 

Se a intransigência do Congresso visava impedir a China de ganhar influência económica, o tiro saiu pela culatra. Foi presumivelmente em resposta a este impasse que a China prosseguiu com o estabelecimento do AIIB.

 

O tamanho da economia da China - e o seu peso diplomático - é um facto que não se pode ignorar. A estratégia de contenção funcionou bem para a América e para os seus aliados durante a Guerra Fria, mas não pode ser aplicada hoje em dia sem flexibilidade e bom senso estratégico.

 

Os críticos da política norte-americana defendem que, mesmo que os Estados Unidos tivessem frustrado os esforços para estabelecer o AIIB, a China teria continuado a projectar poder na Ásia e em todo o mundo, de uma maneira ou de outra. Canalizar essa influência através de uma organização internacional criada recentemente, defendem eles, torna mais provável que ganhem força bruta. (Além disso, esperava-se que os aliados europeus da América se juntassem ao AIIB apesar da oposição americana. O grande poder não se opõe aos seus aliados quando eless vão claramente desafiá-lo).

 

A questão não é, portanto, se a China pode ser mantida fraca e em cheque, mas através de que meios vai exercer a sua influência como um país recém-afluente. Meios económicos - como o AIIB - são uma possibilidade. Mas o confronto militar é outra. Os líderes da China, de Deng Xiaoping a Hu Jintao, perseguiram uma "ascensão pacífica"; a geração actual de líderes, pelo contrário, já não vê a necessidade de permanecer tão tranquila.

 

A vontade do Exército de Libertação Popular de desafiar os navios de outros países no Mar da China meridional, incluindo um cruzador da Marinha dos Estados Unidos, em 2013, sugere que o confronto militar não pode ser descartado. Embora a China não disponha actualmente de recursos navais para enfrentar os Estados Unidos no Pacífico, não quer dizer que isso seja verdade para sempre. E nesse meio tempo, os aliados dos Estados Unidos na região carecem de meios militares para enfrentarem os militares chineses sem a assistência americana.

 

A criação do AIIB e o patrocínio de projectos de desenvolvimento em toda a região vai melhorar a influência económica e política da China, o que por sua vez se poderá reflectir na sua influência militar. O dinheiro ainda compra poder, e é provável que novos projectos de infraestrutura venham com amarras. Mas a energia e os recursos da América seriam muito mais bem gastos a conter as aspirações militares da China do que a tentar impedi-la de se envolver mais com o mundo na esfera económica.

 

É claro que o envolvimento económico não dá nenhuma garantia de relações pacíficas. Se os laços comerciais e financeiros tivessem evitado sempre a guerra, o século XX teria sido muito menos sangrento, e a Rússia seria muito mais bem comportada hoje em dia. Mas esses laços aumentam a probabilidade de existir paz. Enquanto a China estiver a canalizar a sua energia para o desenvolvimento económico orientado para as infra-estruturas, opor-se a isso seria uma tolice.

 

Quanto mais estreitos se tornarem os laços económicos da China com o resto do mundo, mais o país terá a perder com um colapso nas relações internacionais. É melhor que a liderança da China se convença de que o envolvimento económico é a melhor maneira de projectar poder no exterior e de melhorar os padrões de vida internamente, do que conclua - como os líderes da Rússia parecem ter feito - que o confronto militar é o melhor caminho para o respeito internacional.

 

Mark Roe é professor na Harvard Law School.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2015.
www.project-syndicate.org
T
radução: Rita Faria

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