Koichi Hamada
Koichi Hamada 25 de julho de 2018 às 14:00

Como podemos reter os benefícios da globalização?

O mundo globalizado de hoje está longe de ser perfeito. Mas políticas proteccionistas e isolacionistas só pioram as coisas, especialmente se forem usadas como uma desculpa para negar direitos humanos básicos aos imigrantes, entre outras coisas.

Nos últimos anos, para muitas pessoas e seus líderes, a globalização tornou-se um flagelo a ser purgado em favor de um maior proteccionismo e unilateralismo. Isto representa um afastamento acentuado do passado recente, quando a globalização era amplamente considerada como uma força positiva. O que mudou e porquê?

 

Uma das componentes centrais da globalização é a maior mobilidade transfronteiriça de bens, trabalho e capital, cada um dos quais prometendo benefícios globais significativos para as economias. O livre comércio permite que os países capitalizem as suas vantagens comparativas, impulsionando o desempenho económico e as perspectivas de todos os participantes. A migração pode injectar diversidade e dinamismo numa sociedade envelhecida, enquanto ajuda a reduzir a pobreza nos países de origem, por meio de remessas. E o investimento estrangeiro directo (IED) pode criar emprego, estimular a investigação e o desenvolvimento, gerar receitas fiscais e aumentar a concorrência.

 

O problema é que esses benefícios não são necessariamente partilhados por todos. Por exemplo, a migração pode colocar pressão salarial nos trabalhadores com menor qualificação nos países de destino. Ao permitir que as empresas transfiram as suas operações para mercados com mão-de-obra mais barata, a eliminação de barreiras comerciais pode ter um efeito semelhante. Mesmo o investimento transfronteiriço tem as suas desvantagens, já que as empresas domésticas podem ter dificuldades para competir com os estrangeiros.

 

Estes factores contribuíram para o aumento da desigualdade em muitos países. Nos Estados Unidos, por exemplo, trabalhadores com menores qualificações no chamado Rust Belt - a região industrial que se estende do Michigan ao leste da Pensilvânia - enfrentam décadas de estagnação salarial, enquanto os trabalhadores mais qualificados na área das finanças e tecnologia - Wall Street e Silicon Valley – têm visto os seus rendimentos crescer. Embora a abertura económica impulsione as economias como um todo, há uma necessidade óbvia de garantir que os benefícios são distribuídos de forma mais equitativa ou, pelo menos, que alguns grupos não são excessivamente prejudicados.

 

Muitos economistas argumentam que a chave para o sucesso nesta frente é adoptar políticas redistributivas, tipicamente através do sistema fiscal. Mas essas políticas são muito difíceis, se não impossíveis, em termos políticos. Essa lição foi aprendida por muitos políticos progressistas, incluindo o senador norte-americano Bernie Sanders, que tentou mas não conseguiu garantir a nomeação democrata para as eleições presidenciais de 2016 numa plataforma que se concentrava em abordar as frustrações das pessoas com o status quo cada vez mais desigual, sobretudo através da redistribuição.

 

Mais politicamente eficaz, mas económica e socialmente prejudicial, é a abordagem de populistas como o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que oferece explicações simplistas sobre os temores e frustrações dos eleitores (por exemplo, culpando imigrantes ou países com excedentes comerciais) fingindo que existem soluções fáceis (como a construção de muros e a imposição de tarifas).

 

Trump culpou a concorrência internacional pelas dificuldades dos trabalhadores do Rust Belt. Mas isso é apenas parte da história: o deslocamento tecnológico desempenhou um papel maior, embora isso tenha sido muitas vezes ignorado, até porque é mais difícil de demonizar. Ao mesmo tempo, a administração Trump perseguiu políticas anti-imigração extremas e moralmente inconcebíveis, como a política que foi revertida recentemente de separar as crianças migrantes das suas famílias na fronteira sul com o México.

 

Da mesma forma, em muitos países europeus, a reacção contra a globalização traduziu-se numa oposição violenta à migração, já para não falar da crescente resistência à integração europeia. Os eleitores da Áustria, Hungria e Itália elegeram políticos que fizeram campanhas contra a imigração. No Reino Unido, o referendo sobre o Brexit de 2016 reflectiu, em parte, uma rejeição à livre circulação de pessoas dentro da União Europeia.

 

Ao encorajar o unilateralismo e, até certo ponto, o autoritarismo, a reacção contra a globalização não só impede os países de colherem os benefícios económicos da abertura, como também enfraquece as estruturas de cooperação internacional que sustentaram quase três quartos de século de relativa paz desde a Segunda Guerra Mundial.

 

Reverter essa tendência exigirá, naturalmente, a rejeição inequívoca de políticas que desrespeitem os valores democráticos e o repúdio aos líderes que as defendem e implementam. Mas também exigirá esforços para enfrentar os efeitos reais negativos da globalização – a começar pela distribuição de rendimentos excessivamente desigual. Aqui, medidas como um preço de carbono ou uma "taxa Tobin" sobre transacções financeiras internacionais poderiam ajudar. No meu país, o Japão, a administração do primeiro-ministro Shinzo Abe pode precisar de considerar aumentos salariais directos.

 

O mundo globalizado de hoje está longe de ser perfeito. Mas políticas proteccionistas e isolacionistas só pioram as coisas, especialmente se forem usadas como uma desculpa para negar direitos humanos básicos aos imigrantes, entre outras coisas. Políticas equilibradas destinadas a colher os benefícios da abertura - e garantir que esses benefícios são amplamente partilhados - podem não ser a opção mais politicamente útil hoje em dia; mas fariam muito pelas economias e sociedades no futuro.

 

Koichi Hamada é professor na Universidade de Yale e conselheiro especial do primeiro-ministro japonês Shinzo Abe.

 

Copyright: Project Syndicate, 2018.
www.project-syndicate.org

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