André  Veríssimo
André Veríssimo 17 de novembro de 2014 às 09:32

Manipulados

A cultura de ganância na banca de investimento não mudou.

 

Precisamos de mais uns destes para que eu possa cumprir os objectivos este mês". A frase pertence a um "trader" do HSBC e faz parte de uma troca de mensagens num grupo de conversação online privado. Esta e outras mensagens serviram de prova no processo de investigação à manipulação do mercado cambial.


As conversas foram publicadas pela Financial Conduct Authority, o supervisor britânico, na quarta-feira. O mesmo dia em que UBS, RBS, HSBC, JPMorgan, Bank of America e Citi chegaram a acordo com autoridades do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Suíça para o pagamento de 4,3 mil milhões de dólares em coimas por manipulação do mercado cambial, entre Janeiro de 2008 e Outubro de 2013.


Os "traders" dos vários bancos usavam os grupos de conversação para combinar transacções que lhes permitiam empurrar o mercado cambial no sentido que mais lhes convinha, perto do momento em que é definido o preço de referência dos pares cambiais, usado em vários contratos. As ordens eram introduzidas não no interesse dos clientes, mas tendo em conta os seus objectivos pessoais: atingir metas para engrossar os bónus. "Precisamos de mais uns destes para que eu possa cumprir os objectivos estes mês", como dizia o "trader". O desplante está espelhado nos pseudónimos usados: "os jogadores", "os três mosqueteiros", "soldados da fortuna".


As mensagens revelam um "modus operandi" muito idêntico à manipulação da Libor e outras taxas de juro do mercado monetário. O mais inquietante é a prática ter continuado no mercado cambial, mesmo depois das coimas milionárias aplicadas no caso Libor a partir de 2012. Prova de que a cultura de ganância na banca de investimento não mudou. Sinal de que os controlos internos para evitar este tipo de casos continuam a não ser suficientes.


A vigarice já passou também pelos contratos de energia, metais preciosos, derivados e até acções - há quem defenda que a negociação algorítmica também vicia o jogo. Tantos casos fazem crer que sempre foi assim. A diferença é que alguns começam a ser apanhados pelos supervisores.


Os bancos pagaram 207 mil milhões de euros, entre 2009 e 2013, em coimas, acordos judiciais e provisões por práticas ilícitas, de acordo com a CCP Research Foundation, uma organização que promove as melhores práticas e ética na gestão. A soma impressiona. Mas não parece dissuadir. Desde que foi conhecida a "multa" de 4,3 mil milhões de euros, os bancos visados registam ganhos em bolsa ou perdas ligeiras. Tal é o peso que os investidores deram à punição.  

 

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