João Cândido da Silva
João Cândido da Silva 25 de agosto de 2008 às 14:00

A doutrina Sinatra

Os europeístas mais ferrenhos gostam de fingir que o peso e o prestígio da União Europeia no tabuleiro internacional é grande. A realidade encarrega-se, de tempos a tempos, de demonstrar que se mantém plenamente actual o velho retrato de uma Europa de dimensão ainda elevada na frente económica mas um pigmeu no plano diplomático.
Os eurocratas acreditam que, ao iludirem-se a si próprios, conseguem persuadir alguém de que a realidade é como eles gostariam que fosse. Peroram sobre o que a Europa é ou deixa ser, do que deve ou não fazer, de onde acham que vem e para onde vai. Descolam do chão, onde deviam ter os pés bem assentes. De vez em quando caem, com estrondo, das nuvens em que pairam. Estatelam-se sobre conflitos como o que opõe a Geórgia à Rússia.

Há, na estrutura da União Europeia, uma personagem que era suposto ser uma espécie de ministro dos Negócios Estrangeiros. Chama-se Javier Solana. Deveria ser o interlocutor com quem se discute e o porta-voz das posições comuns dos 27. Não é nada disto mas apenas uma personagem que faz umas declarações a quem se lembra que existe.

A força da diplomacia europeia, se tal coisa não é ficção, mora noutro lado. Em Paris e em Berlim, sobretudo, de onde têm partido as iniciativas e as tomadas de posição sobre a crise no Cáucaso. De resto, não se detecta nem sombra de algo a que se possa chamar, mesmo com favor, de uma estratégia comum para enfrentar situações em que os interesses da União podem ser colocados em causa. O sonho europeu é bonito mas tem limites. Até no campo económico e financeiro, onde os avanços da integração revelam os maiores sucessos da chamada "construção europeia".

Durante o encontro que banqueiros centrais e economistas mantiveram, neste fim-de-semana, nos Estados Unidos, dois investigadores apresentaram um trabalho baseado num cenário hipotético, mas verificável. Perante a crise do crédito, que os participantes bem informados afirmaram estar longe de ter já esgotado todos os seus impactos negativos, que fariam as autoridades europeias se uma grande instituição financeira do Velho Continente entrasse em colapso? Que hipótese teriam as autoridades de países de pequena dimensão, em relação ao valor dos activos e das perdas potenciais em causa, se fossem confrontadas com a necessidade de intervir para evitar choques negativos e extensos sobre a economia real?

Sobre esta matéria, não se pode dizer que Bruxelas ande a dormir. A preocupação em saber quem pagaria a conta em caso de dificuldades graves num banco com uma implantação transfronteiriça já foi manifestada pela Comissão Europeia. Ainda não há resposta, o que revela a incapacidade da burocracia em acertar o passo com as oportunidades e as ameaças de um mundo irremediavelmente globalizado. Na política e na economia, a Europa está entregue à "doutrina Sinatra". Cada um faz à sua maneira.

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