Sérgio Figueiredo 13 de abril de 2006 às 13:59

Uma empresa, dois CEO

Em primeiro, a empresa. Depois, os planos dos accionistas para os próximos anos. É isto que verdadeiramente interessa a todos. Aos milhares que lá trabalham, aos milhões de clientes. Só depois, os nomes. A discussão do CEO.

Ok, aceito a crítica de que esta ordem de prioridades é a «politicamente correcta». Quem vai, afinal, refutar um princípio básico, uma elementar regra de sensatez?

E que raio de empresa iria distrair-se com golpes palacianos, dispersar recursos em jogos de poder ou destruir estratégias em fogueiras de vaidades? Não é preciso chegar ao fim da pergunta, já certamente que adivinhou a resposta: a Galp.

Sim, no caso da Galp, a ordem das prioridades tem sido olimpicamente ignorada por muito boa gente. Não, não foram as pessoas, mas esta inversão de valores que, durante estes anos, atrofiou a Galp. Travou o crescimento, baralhou a estratégia internacional, cultivou a instabilidade interna.

A entrada de Amorim já foi aqui aplaudida, porque um grande empresário português decidiu passar da conversa aos actos e chegou-se à frente com um cheque que, até então, ninguém tinha mostrado.

Também foi aqui, em tempo oportuno, elogiado o Governo por ter resistido à tentação de inventar um outro plano de reestruturação, de ter pura e simplesmente declarado que as empresas do sector são livres de concorrer.

E, no cruzamento destes dois momentos felizes da vida da empresa, nasce um plano estratégico a cinco anos, em que a Galp ambiciona ganhar rumo, músculo e dimensão internacional. Investe, para isso, a impressionante soma de 4 mil milhões de euros até 2010.

Um esforço que iremos cobrar, euro a euro, cêntimo a cêntimo. Porque é um esforço que deve assentar na sustentabilidade. Numa política de investimentos séria, capaz de posteriormente devolver à sociedade os brutais ‘cash-flows’ que a cotação do petróleo lhe concede.

Que essa «devolução» venha através do Ambiente, investindo finalmente a empresa em geração eólica, por exemplo, como promete agora fazer. Ou na recomposição de reservas e outras medidas que dilatem no tempo a garantia de continuarmos a ter gás e petróleo como fonte de energia.

Este plano de investimento será a única razão para que o consumidor de combustíveis continue a pagar os lucros obscenos da Galp e das petrolíferas de todo o mundo. E para que um imposto extraordinário não seja criado para evitar que tamanhos lucros se tornem ordinários.

A Galp era avaliada em 3 mil milhões de euros e hoje vale 5 mil milhões. É menos por méritos próprios e mais pelas margens de refinação exageradas. A crise do petróleo «legitimou» um confisco, que a empresa só agora justifica «merecer». Esta assembleia pode marcar a vida da empresa e de quem, diariamente, com ela se relaciona num posto de abastecimento. E isto é o essencial.

Agora os nomes: Marques Gonçalves e Ferreira de Oliveira. Uma empresa, dois CEO. A esquizofrenia terá de se resolver. Não por causa do IPO, que se faz mesmo sem presidente. Mas para evitar que a história se repita. E acabar com a maldição da Galp. Quando nunca se sabe quem manda, a anarquia vence.

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